Conheça Doc Charles B.

Doc é um veterano do

hard rock, que viveu

mais festivais do que

dentes em sua boca. .

Com 54 anos,

conseguiu seu dinheiro

da forma mais honesta

possível: herdando.

Desde então, viaja o

mundo atrás de

festivais e shows de

hard rock.

Dono de todas as opiniões

não pedidas sobre

tudo e todos os

assuntos envolvendo

música, bebidas e

vida desregrada.


A Visão Colorida de Doc


Naquela altura da madrugada, Belo Horizonte já parecia uma cidade abandonada por Deus, pela prefeitura e pelo bom gosto.

O bar sobrevivia graças a três pilares sólidos da civilização ocidental: fritura velha, iluminação amarela e alcoolismo persistente.

No último banco alto do balcão, Doc Charles B. observava um copo de whiskey vagabundo com a mesma expressão de um homem que já perdeu a fé na humanidade, mas ainda aprecia guitarras altas demais para a idade que possui.

Atrás do balcão, um barman magro e deprimido limpava copos com a dedicação burocrática de quem claramente havia desistido dos próprios sonhos entre 2007 e 2009.

No fundo do bar, a última mesa ocupada resistia heroicamente ao encerramento das atividades. Um casal sessentão completamente destruído pelo álcool discutia em volume industrial.


— EU ESTOU TE DIZENDO, MÁRCIA… O ROBERTO CARLOS NUNCA MAIS FOI O MESMO DEPOIS DAQUELE ESPECIAL DE FIM DE ANO EM 1998.


— VOCÊ NÃO ENTENDE NADA DE MÚSICA, GERALDO.


Doc tomou mais um gole.

A humanidade estava encerrando suas atividades naquela noite.

Foi então que a porta abriu.

E Belo Horizonte sofreu um pequeno colapso estético.

Quatro figuras coloridas entraram no bar trazendo consigo o impacto visual de um vazamento radioativo dentro de uma loja de roupas adolescentes. Calças fluorescentes. Pulseiras neon. Franjas arquitetonicamente criminosas. Perfume doce demais. Energia demais.


A Restart.


Ainda vestindo as roupas do show.

Um show aparentemente frequentado por vinte e

três pessoas, sendo onze parentes, quatro curiosos, dois bêbados perdidos e talvez um entregador procurando outro endereço.

Os meninos sentaram nos bancos altos

ao lado de Doc.

O vocalista pediu um drink colorido com nome

impronunciável.

O barman permaneceu imóvel alguns segundos.

Enquanto o homem tentava improvisar algum líquido fluorescente com vodka barata e substâncias possivelmente ilegais, Geraldo levantou abruptamente da mesa do fundo.


Quase caiu. Apontou para os garotos como um náufrago emocional reconhecendo terra firme.


— MÁRCIA… É A RESTART.


Márcia arregalou os olhos como se tivesse encontrado os The Beatles numa fila de açougue.


— AI MEU DEUS. MENINOS. UMA SELFIE.


E foi naquele momento que Doc percebeu algo profundamente perturbador.

Aqueles moleques não eram apenas adolescentes vestidos por um ataque epiléptico numa fábrica

de marca-texto.


Eles eram famosos.


Os garotos levantaram cansados, sorriram educadamente e tiraram a foto com o casal embriagado.


Gentis.

Educados.

Quase simpáticos.

Uma tragédia completa.


Quando voltaram ao balcão, o vocalista sentou ao lado de Doc.


— O senhor estava no show?


Doc permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Observou o copo. Depois observou o garoto.

Depois observou a bebida fluorescente recém-servida no balcão como um cientista observando plutônio instável.


— Meu rapaz… eu não fazia a menor ideia de quem vocês eram até quarenta segundos atrás.


O vocalista riu. Cansado. Honestamente cansado.


— Sério?


— Eu tenho 54 anos, dores inexplicáveis e

uma coleção de discoa maior que seu

apartamento. Naturalmente não sei quem

vocês são.


Outro integrante segurou o riso.


O vocalista puxou o celular do bolso.


— Então escuta aí.


Abriu o Spotify.


Doc observou a tela com profundo desprezo antropológico.


— Vocês escutam música nisso?


— Sim.


Doc tomou um gole lento de whiskey.

O garoto apertou play. A música começou.


O refrão colorido se espalhou pelo bar como energético sonoro. O casal no fundo balançava lentamente a cabeça sem entender absolutamente nada.

O barman encarava a parede tentando imaginar em qual momento da vida tudo havia dado errado.


Doc ouviu. Sem interromper. Sem ironia inicial.

Apenas olhando fixamente para o balcão enquanto guitarras domesticadas e melodias açucaradas

preenchiam o ambiente.

Quando terminou, ele pegou o copo. Tomou mais um gole. Devolveu o celular. E disse:


— Meu rapaz… vocês não soam como uma banda. Soam como trilha sonora de desenho animado da Cartoon Network.


Silêncio.


O barman fechou os olhos lentamente.


Geraldo sussurrou:


— Pesado…


O vocalista ficou alguns segundos imóvel.

Ferido. Mas curioso.


— Então como deveria soar?


Foi aí que Doc levantou lentamente do banco.

No canto do bar repousava um jukebox velho, cansado e milagrosamente funcional.

Doc caminhou até a máquina com a solenidade de um sacerdote alcoólico prestes a iniciar um ritual pagão.

Colocou algumas moedas. Selecionou uma faixa.

Segundos depois, uma guitarra violenta atravessou o ambiente.


You Can't Stop Rock 'n' Roll do Twisted Sister.


O bar inteiro pareceu despertar de um coma moral.

A bateria entrou como uma briga de rua.

A guitarra rasgou o ar.

E Dee Snider surgiu berrando como um caminhoneiro possuído por entidades demoníacas.

Doc fechou os olhos por um instante.

Ali estava.

O excesso. O perigo. O ridículo glorioso.


A sensação de que aquela música poderia genuinamente causar um pequeno incêndio ou uma gravidez não planejada.

Os integrantes da Restart permaneceram em silêncio.

O vocalista olhava para o jukebox como alguém descobrindo uma nova religião.


— Isso é… absurdo.


Doc acendeu um cigarro lentamente.


— Claro que é. Parece música feita por homens que já apanharam da vida.


Outro integrante perguntou:


— E qual o problema da nossa?


Doc soltou fumaça devagar.


— A de vocês parece feita por gente preocupada demais com a cor da calça.


Silêncio novamente.


Geraldo começou a bater cabeça sozinho no fundo do bar.

Márcia tirava fotos para o Facebook.


E Belo Horizonte assistia, sem saber, ao momento exato em que quatro garotos emocionalmente

fluorescentes começaram lentamente a compreender o poder destrutivo de um riff de guitarra honesto.

Ao amanhecer, testemunhas afirmam ter visto integrantes da Restart caminhando em silêncio pelas ruas da cidade, vestidos de preto, cheirando a cigarro, ouvindo UNDER THE BLADE e reconsiderando decisões capilares.